Guilherme Thomaz de Oliveira
1. INTRODUÇÃO
O considerável avanço na construção civil nos últimos anos, aliado à busca por obras cada vez mais esbeltas, arrojadas e de grande altura, permitiu que a engenharia civil superasse limites antes considerados completamente difíceis de se alcançar. Desde os primeiros arranha-céus do século XX até as torres modernas, estas estruturas têm sido resultado de avanço em técnicas construtivas, materiais inovadores e design cada vez mais sofisticados. O imponente edifício Senna Tower ilustrada na Figura 1, será o edifício residencial mais alto do mundo e será construído em Balneário Camboriú, Santa Catarina, surge como um grande símbolo dessa evolução e supera todos os limites da engenharia nacional. Contudo, à medida que a verticalidade dessas edificações aumenta, surgem com elas desafios ponderáveis para garantir não apenas a segurança e a eficiência, mas também a sustentabilidade, temas essenciais nas construções de grande porte. Neste artigo, além de explorar como a engenharia civil transformou desafios em conquistas, torna-se interessante realizar uma comparação entre o futuro edifício residencial com alguns arranha-céus já existentes, analisando as inovações que moldam o futuro da construção vertical.
Figura 1: Futuro empreendimento residencial mais alto do mundo (Senna Tower)
Fonte: FG Empreendimentos (2025)
2. SENNA TOWER
O Senna Tower homenageia o legado do piloto de Fórmula 1, Ayrton Senna, e promete ser uma verdadeira obra-prima da arquitetura moderna, elevando-se a alturas impressionantes. Segundo a empresa FG empreendimentos, este novo gigante vertical terá mais de 500 m de altura e contará com 204 apartamentos, 18 mansões suspensas e elevadores ultra rápidos. Situado na cidade com o metro quadrado mais caro do Brasil, que é Balneário Camboriú – SC, segundo o índice FipeZAP de Venda Residencial (Tabela 1), este projeto não só irá redefinir o horizonte das cidades, mas também trará uma nova era para a habitação de luxo e o uso inteligente de espaços urbanos.
Tabela 1: 10 cidades com o metro quadrado mais caro em dezembro de 2024
Fonte: Índice FipeZAP (2025)
Pela magnitude do Senna Tower e a dificuldade de se construir na costa brasileira, à beira-mar, enfrentando solo rochoso e ventos intensos, o projeto trará ao Brasil profissionais de renome no cenário mundial da construção civil e as principais tecnologias para enfrentar ponderáveis desafios que surgem na construção de arranha-céus, tais como os descritos nas próximas seções deste texto.
3. INFLUÊNCIA DO VENTO
O vento é um dos fatores mais críticos no projeto de estruturas esbeltas, principalmente em áreas sujeitas a ventos fortes como a região costeira. As forças provocadas pelo vento (Figura 2) podem gerar deslocamentos excessivos, colocando em risco não apenas a estabilidade e a durabilidade da construção, mas também o conforto e a funcionalidade dos espaços projetados.
Uma das soluções encontradas pela equipe de engenheiros e arquitetos foi utilizar o formato aerodinâmico dos edifícios para diminuir a ação do vento. É possível afirmar que “A geometria da estrutura também é um fator relevante, pois a presença de recuos, saliências e mudanças bruscas de direção na estrutura pode gerar efeitos aerodinâmicos indesejados”(De Souza Santos; De Marco; Florian, 2023, p.5). O comportamento do vento próximo do solo é descrito como mais lento, porém mais turbulento devido aos obstáculos, e no topo o vento descreve um comportamento laminar com ventos mais fortes. Torna-se evidente que à medida que se vai ganhando altura na edificação, há também um aumento significativo da força do vento e consequentemente uma maior pressão horizontal atuante na estrutura.
Figura 2: Fluxo do vento em torno de um edifício alto

Fonte: Adaptado de Holmes (2004, p.186)
No Brasil, a norma ABNT NBR 6123:2023 – Forças devidas ao vento em edificações – estabelece os requisitos aplicáveis à análise das forças geradas pelos efeitos estáticos e dinâmicos do vento, considerando a estrutura completa ou em partes, além de elementos estruturais e itens associados, como acabamentos e sistemas de vedação. Outro aspecto que deve ser considerado são os efeitos da vizinhança, já que “a presença de edificações vizinhas pode alterar completamente o padrão de escoamento” do vento (Loredo-Souza, 2020, p. 52), dependendo da localização. Segundo (Favero, 2012), a presença desses obstáculos gera interferências nos efeitos aerodinâmicos, aumentando as forças de sucção, momentos fletores e efeitos de torção. Para saber, de um modo geral, como o fluido (Ar) se comportará em um determinado campo, são feitas análises do comportamento dinâmico da estrutura por meio de estudos em túneis de vento.
4. ANÁLISE EM TÚNEIS DE VENTO
Testes em túneis de vento (Figura 3) e simulações computacionais são essenciais para avaliar-se o desempenho de estruturas submetidas à ação do vento. “Trata-se de um estudo experimental, capaz de prever possíveis situações que possam vir a ocorrer quando a edificação real for submetida a ação do vento” (Vizioli, 2022, p.71). Para isso, uma maquete é construída e exposta a ventos que variam de 50 a 300 km/h, possibilitando os engenheiros verem como o prédio se comportará, já com todo seu design, e decidir quais técnicas usar na construção. Por exemplo, eles podem optar por colocar um contrapeso no topo da edificação, como no Taipei 101 (508 m) para evitar que o prédio balance demais, ou então optar por deixar andares vazados que permitam o escoamento de rajadas de vento, como no 432 Park Avenue (426 m), ou usar estruturas chamadas out-riggers que funcionam como um sistema de contravento, garantindo um amortecimento do impacto do vento, como no Yachthouse (294 m).
Figura 3: Ensaio no túnel de vento do edifício Senna Tower (ainda antes denominado por Triumph Tower), realizado pela RWDI – Canadá

Fonte: Skyscrapercity (2022)
Para amenizar a influência do vento na estrutura e prevenir a estrutura de abalos sísmicos e terremotos, o edifício Senna Tower será o primeiro da América Latina a contar com um sistema já utilizado em grandes edifícios pelo mundo que é o TMD (Tuned Mass Damper), que consiste em um sistema de contrapeso que se move em oposição à frequência natural do edifício, absorvendo e dissipando a energia que causaria oscilações na estrutura.
5. DESAFIOS COM A FUNDAÇÃO
A construção de grandes edificações exige fundações com maior capacidade de suporte para sustentar o peso em si da estrutura e transferi-la para o solo. Nesse contexto, é necessário que haja um rigoroso estudo do tipo de solo que será ocupado pela construção. A sondagem do solo é um procedimento essencial para entender as condições naturais do solo, incluindo seu tipo, características físicas e resistência, conforme destacado por Rebello (2011, p. 27). De modo que, o tipo de solo afeta diretamente não só a definição da fundação, mas também a possibilidade de recalques e no indicio de patologias na estrutura (Silva, 2023).
Quando se compara o perfil do solo onde será construído o Senna Tower com o do Burj Khalifa (828 m – atual edifício mais alto do mundo), é possível observar que em diferentes regiões há também variações significativas no tipo e no comportamento do solo, o que influencia diretamente na escolha da fundação. O Burj Khalifa, por exemplo, está situado em uma área com solo arenoso, onde os engenheiros não encontraram nenhuma camada suficientemente resistente para suportar o peso da estrutura, mesmo após perfurações que atingiram até 140 metros de profundidade (Guimarães, 2023). O que leva a determinar um tipo de fundação específica para uma região, possibilitando até mesmo o surgimento de novas tecnologias na escolha da fundação a ser aplicada. Nesse sentido, ainda segundo Guimarães (2023), William Baker (engenheiro chefe responsável pelo Burj Khalifa) propôs uma solução inovadora, onde a utilização de várias estacas de concreto armado garantiriam a estabilidade da estrutura, evitando com que a mesma não viesse a afundar no solo arenoso.
Já o local onde será construído o edifício Senna Tower, de acordo com BC – experimental testing site (2024), apresenta um solo arenoso, com camadas espessas de argilas e a cerca de 36 m de profundidade há a presença de rochas de Granito Valsungana (Biotita monzogranito). Nesse sentido, considerando que boa parte do litoral catarinense é composto pela presença de solos moles e até mesmo compressíveis (Drozczak; Olavo, 2024), e devido à proximidade com o mar e ao alto nível do lençol freático, exigirá dos engenheiros e geotécnicos uma boa sondagem do solo que será ocupado e técnicas específicas para garantir a estabilidade e durabilidade da construção. De acordo com Stéphane Domeneghini, diretora-executiva da Talls Solutions e engenheira responsável técnica pelo projeto do Senna Tower, “há uma série limitada de equipamentos com capacidade de perfurar a rocha do local do empreendimento”. E é claro que esses fatores juntos, demandam um bom planejamento e conhecimento técnico para que a perfuração seja feita de forma eficiente e segura.
Pela primeira vez, no Brasil, uma solução técnica inovadora pensada especialmente para o perfil geológico do local, será executada pela União Fundações (empresa responsável pela fundação do Senna Tower), que incrivelmente implementará o uso de estacas Auger Caster em um arranha-céu supertall (acima de 300 m), ilustrada na Figura 4. Com uma profundidade prevista de 40 m até atingir a camada rochosa e mais 5 m de cravação, essas estacas serão fixadas em um maciço rochoso considerado um dos mais estáveis do mundo. A utilização dessas estacas segundo, Stéphane Domeneghini, são mais ágeis se comparadas com as tradicionalmente associadas a edifícios supertalls implantados em terrenos em que a rocha se encontra a um certo nível de profundidade, menos poluentes e com menor impacto à vizinhança, garantindo assim a segurança, eficiência e reduzindo os impactos ambientais.
Figura 4: Projeto de fixação de estacas para o maior arranha-céu residencial do mundo

Fonte: FG Empreendimentos (2025).
6. CONSIDERAÇÕES FINAIS
Acerca do que foi apresentado, é certo de que a engenharia está em constante evolução, em busca de empreendimentos cada vez mais esbeltos, seguros e sustentáveis. O edifício Senna Tower é um testemunho da capacidade humana de superar desafios e inovar. Ao enfrentar ventos intensos, solos complexos e a necessidade de sustentabilidade, a engenharia civil deu um salto impressionante, utilizando tecnologias como o sistema TMD e estacas Auger Caster para garantir a segurança e eficiência. Este projeto não apenas transforma o horizonte de Balneário Camboriú, mas também coloca o Brasil no mapa global de construções de grande porte, mostrando que é possível alcançar o que outrora se considerava impossível. Essa trajetória de progresso na construção civil nos lembra que, com dedicação e visão, não há limites para o que podemos construir.
REFERÊNCIAS
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