Tema que se popularizou por todo o Brasil, o processo de alargamento da faixa de areia presente nas praias da região Sul, como Balneário Camboriú e Florianópolis, como medida de trazer de volta o conforto dos praianos, trouxe grande repercussão seguida de questionamentos, como: “o que é exatamente?”, “como a obra é executada?”, “qual o custo?”, “qual os malefícios?”, entre outros.

Em resumo, o alargamento da faixa de areia, também conhecido como engorda artificial, nada mais é do que a construção de um aterro de areia na costa da praia, aumentando o comprimento da mesma, com a retirada do material pelo próprio mar respectivo, ou seja, esta terá as mesmas propriedades da original. Porém, para o real entendimento do processo, é importante contextualizar os reais fatores ambientais e sociais que causam tal redução da faixa.

Carência da faixa de areia

Primeiramente, é necessário compreender os fatores que atuam na “falta” de areia, ou seja, na insatisfação da população em relação ao comprimento da faixa.

Em consequência da ação humana sobre a natureza, tem-se o descontrolado aquecimento global, com características climáticas que provocam o aumento do nível do mar, sendo eles o aquecimento dos oceanos, o qual é estimado que 50% do crescimento dos mares do último quarto do século se deve à dilatação térmica da água (PNAS); o derretimento das geleiras, que significou a perda global de mais de 9 bilhões de toneladas de gelo glacial desde 1961, aumentando o nível do mar em 2,7 cm (Universidade de Zurique); e o degelo dos polos, tal qual estima-se que entre 2006 e 2015 a fusão das calotas polares injetou mais de 430 gigatoneladas anuais de água doce nos oceanos, contribuindo assim para o aumento do nível do mar em mais de 1,2 mm/ano (IPCC). Estudos indicam que este aumento pode chegar aos 2 metros no final do século XXI, trazendo consequências drásticas para todo o mundo.

Além disso, o processo de erosão costeira também contribui para o recuo da linha de costa, este ocorre em 70% das praias arenosas do planeta. A variação de sedimentos, conhecido como balanço sedimentar, quando negativo, ou seja, quando tem mais perda de sedimentos do que ganho, caracteriza a erosão, isto é, com o passar do tempo a água do mar retira mais areia do que descarga. Praias não afetadas pela habitação humana apresentam processo erosivo mais lento, devido à preservação da vegetação natural, enquanto as mais movimentadas o contrário. O aumento do nível do mar, como citado anteriormente, intensifica mais ainda o processo de erosão.

Vale lembrar que o Brasil, localizado em uma região tropical, tem suas praias como alvo turístico, fato que contribui fortemente para o desenvolvimento dos municípios que as possuem. Portanto, observando a explosão do crescimento da população e da expansão destas cidades, nota-se que, na grande maioria, o interesse econômico descarta o respeito ao espaço natural das praias e principalmente a preservação mínima da mata atlântica, onde estabelecimentos e arranha-céus “engolem” a faixa ao longo dos anos, “sobrando” cada vez menos areia.

Execução de obra

O maquinário utilizado para esta obra é o TSHD, Trailing Suction Hopper Dredger (Draga de Sucção em Arrasto), popularmente conhecida como Draga Hopper, consiste em uma embarcação marítima muito versátil, pois une as funções de dragagem, transporte e descarga em um único equipamento.

TSHD, Trailing Suction Hopper Dredger. Fonte: Allonda.

O procedimento de dragagem é feito por um ou dois braços de sucção com pontas de arrasto que são estendidas à embarcação para atingir o nível necessário para a coleta do solo do fundo do mar. 

A aplicação deste é vasta, além do alargamento da faixa de areia das praias pode ser executada para a manutenção de cursos d’água, recuperação de terras, construção e manutenção de portos e até na criação de ilhas (como a famosa ilha artificial Palm Islands em Dubai).

Palm Islands, Dubai. Fonte: Flickr

Em seguida, especificamente para o alargamento da faixa de areia, a ordem dos procedimentos, em essência, não varia, apenas o projeto. Portanto, tendo a obra de Balneário Camboriú como exemplo, inicia-se com o estudo da praia, analisando o comprimento atual, e o desejado, com base no fluxo de pessoas, e teoricamente, considerando o recuo gradual devido aos problemas citados anteriormente. Este possuía 25m (150 km²) e foi projetado o aumento para 70m (500 km²) de faixa areia, na extensão  de 780m escolhida. Com o dimensionamento e orçamento realizado, foi estimado um valor de 66,8 milhões de reais para o transporte de 2 a 3 milhões de metros cúbicos de areia.

Como se trata de uma obra que interfere diretamente no meio ambiente, foi preciso a aprovação da Comissão Central de Licenciamento Ambiental do Instituto do Meio Ambiente (IMA), concedendo a Licença Ambiental de Instalação (LAI) para as obras de alargamento da faixa. Com o documento, a prefeitura conseguiu assinar a ordem de serviço.

Antes do início da dragagem, é necessário a montagem da tubulação responsável pelo transporte do material da draga à costa, tal projeto consistia em 360 tubos de 6 toneladas cada, soldados em série ao longo da orla, formando uma cadeia de 2,2 km de tubulação.

Organização dos tubos sobre a orla. Fonte: Prefeitura de Balneário Camboriú

Após, o tubo é levado ao mar e conectado à draga. Porém, como se trata de uma obra de larga escala, afetaria negativamente retirar o material somente neste raio de 2,2 km, pois concentraria os “buracos” formados no fundo do mar. Assim, a embarcação, neste caso, não ficou fixa ao tubo, retirando a areia de uma jazida localizada a 15 km da costa, e armazenando em uma cisterna no seu interior. Então, a draga retorna à tubulação, é realizada a reconexão e finalmente, através do tubo, a areia vai da cisterna até a orla junto com a água do mar, fato que explica a coloração escura da areia que é despejada, ou seja, ela somente está encharcada. Etapa que se repete até a quantidade de areia ser suficiente para a expansão desejada.

Etapas de conexão tubulação-draga. Fonte: Prefeitura de Balneário Camboriú

Por fim, ao final da tubulação, com o auxílio de escavadeiras e pá carregadeiras, a areia é moldada e espalhada de forma a realizar o alargamento da faixa.

Molde da areia por maquinários. Fonte: G1/Globo

Referências:

https://www.aecweb.com.br/revista/materias/o-que-e-e-como-funciona-o-alargamento-de-faixa-de-areia-das-praias/19431

https://imobillenegocios.com.br/blog/alargamento-da-faixa-de-areia-de-balneario-camboriu/

https://www.nsctotal.com.br/colunistas/dagmara-spautz/como-e-feito-o-alargamento-da-praia-em-balneario-camboriu

https://www1.folha.uol.com.br/cotidiano/2021/08/balneario-camboriu-triplica-faixa-de-areia-engolida-por-construcoes-a-beira-mar.shtml

https://g1.globo.com/rj/rio-de-janeiro/noticia/2019/12/30/faixa-de-areia-de-copacabana-diminui-10percent-em-uma-decada.ghtml

https://gauchazh.clicrbs.com.br/comportamento/verao/noticia/2017/12/o-litoral-encolheu-o-que-explica-a-reducao-das-faixas-de-areia-nas-praias-gauchas-cjbgxkwtf02af01p941hmycwl.html

https://mundoeducacao.uol.com.br/geografia/movimento-das-aguas-oceanicas.htm

https://www.bbc.com/portuguese/vert-tra-54608234

https://www.iberdrola.com/meio-ambiente/aumento-do-nivel-do-mar

Escrito por: Matheus Afonso Pinto de Mello.
Arte de capa por: Bianca de Oliveira Melo.